Giro da semana
Prometeram casa. Entregaram reajuste.
Imagine a pasta. Aquela de plástico transparente, com elástico, que a gente só compra quando vai financiar alguma coisa.
Dentro dela, três contracheques, o extrato do FGTS, a certidão de casamento, a matrícula do imóvel e o laudo do engenheiro. Tudo conferido, tudo na ordem em que o banco pediu.
A assinatura estava marcada para o dia 16.
A pessoa chegou na agência com a pasta debaixo do braço, e a porta de aço estava no chão.
A data não é minha. É o exemplo que o Portas usou para explicar quem pode cobrar o quê depois da greve da Caixa: crédito aprovado no dia 2, assinatura marcada para o dia 16, procedimento cancelado pela agência. A pasta e a porta no chão eu acrescentei, porque é assim que a cena acontece. Quantas pessoas viveram isso, a Caixa não disse.
A semana inteira foi assim. O país passou sete dias discutindo a casa própria: doze planos de governo, um balcão fechado, dois índices novos. E no fim, do lado de cá, a única coisa que chegou com valor e data de vencimento foi o reajuste do aluguel.
O país tem um balcão só, e ele passou vinte dias fechado
A Caixa é quase 70% do financiamento de imóvel do Brasil, pela conta da Bloomberg. Não é um banco entre vários. É o balcão.
Esse balcão ficou em greve de 10 a 29 de setembro. Vinte dias.
Na terça o Tribunal Superior do Trabalho julgou a greve, decidiu que ela não foi abusiva, mandou todo mundo voltar e deixou os dias parados para compensar em até 180 dias. Na quarta as agências reabriram.
Não abusiva é uma expressão jurídica, e eu respeito. Quer dizer que o sindicato seguiu a lei de greve: o tribunal tinha mandado manter 60% do atendimento e não achou prova de que isso foi descumprido em geral. Está certo. Só que o tribunal e a pessoa da pasta não estão falando da mesma coisa. Para ela, a palavra talvez fosse outra. Ninguém perguntou.
A Caixa, em nota, disse que as contratações de crédito imobiliário “seguiram disponíveis” pelo canal digital e pelos correspondentes. Disponível é uma palavra honesta. Diz que o caminho existia. Não diz quanta gente conseguiu passar por ele, e o banco não informou quantas operações ficaram paradas.
Se a sua era uma delas, os advogados que o Portas ouviu concordam num ponto: quem entregou os papéis no prazo, teve o crédito aprovado, avisou os envolvidos e ficou esperando uma etapa do banco não está em atraso. O atraso é de terceiro, e multa pressupõe culpa. Então junte os protocolos, os prints do aplicativo e o e-mail cancelando a assinatura, e escreva para o vendedor pedindo prazo novo. Por escrito, com confirmação de leitura.
E se você ainda vai assinar uma proposta de compra, os mesmos advogados sugerem de 60 a 90 dias para a liberação do crédito, com cláusula de prorrogação se o atraso for do banco. Trinta dias, dizem eles, não cabe na fila que ficou.
A caderneta esvazia e o empréstimo engorda. De novo.
Na quarta, no dia em que as agências reabriram, a Abecip, que é a associação dos bancos que emprestam para casa, publicou os números de agosto. Do mês em que as portas ainda estavam abertas.
R$ 17 bilhões emprestados com dinheiro da poupança. No ano, R$ 132,5 bilhões, 37,5% a mais que de janeiro a agosto de 2025.
Enquanto isso, da mesma poupança, saíram R$ 9,5 bilhões a mais do que entraram em agosto. No ano, R$ 47 bilhões.
Eu já escrevi essa frase em agosto, sobre julho. Escrevo de novo porque a planilha também se repetiu. É o mesmo pote. O dinheiro que financia a casa sai da caderneta que está esvaziando.
O diretor da Abecip disse ao Globo que as razões do salto “não são muito claras”. Agradeço a franqueza. Quando o dono do número não sabe explicar o número, o resto de nós pode parar de fingir que sabe.
Doze planos de governo, nenhum balcão
No sábado a Folha leu os doze planos de governo registrados no TSE atrás do que cada candidato promete para o crédito da casa própria.
Tem de tudo. Ampliar o programa de habitação para todas as faixas de renda. Voltar ao programa anterior, com meta de 2,5 milhões de casas. Cortar o IOF para o juro cair. Uma hipoteca de cinquenta anos com parcela entre R$ 200 e R$ 500. Usar o histórico de aluguel pago como prova de renda. Estatizar o sistema financeiro inteiro.
Não vou dizer qual é melhor. Hoje é dia de eleição, e não é disso que esta coluna vive.
O que me prendeu foi outra coisa. A Bloomberg notou que os planos dos dois candidatos que lideram as pesquisas para aliviar a dívida das famílias passam, os dois, pela Caixa. E uma analista da S&P resumiu: o papel da Caixa como motor do mercado imobiliário não deve mudar, seja quem for o próximo governo.
Ou seja: doze promessas de casa. E o balcão por onde passa quase 70% do financiamento de imóvel do país é o mesmo que ficou de porta baixada por vinte dias. No resumo da Folha, nenhum dos doze fala de horário de funcionamento.
Plano de governo promete a casa. Quem entrega é a agência.
Seu aluguel subiu por causa da soja
Na terça a FGV divulgou o IGP-M de setembro: 1,57% num mês só, depois de três meses seguidos de queda.
Se o seu contrato de aluguel é corrigido por esse índice, o que importa é o acumulado de doze meses, e ele pulou de 2,16% para 3,34%. Quem tem o reajuste em outubro leva os 3,34%.
A conta, num aluguel de R$ 2.000: a diferença entre ter tido o reajuste em setembro e tê-lo em outubro é R$ 23,60 por mês. R$ 283 no ano. Por causa de um mês no aniversário do contrato.
E por que o índice subiu? O economista da FGV explicou: soja, milho e carne bovina subiram no atacado, e acabou o bônus de Itaipu que estava baratando a conta de luz. Nenhum deles é o seu apartamento. Mas o índice que corrige o seu aluguel mede, na maior parte, preço de atacado.
Você não comprou soja. Não importa.
O anúncio subiu menos que o resto da vida
Na quinta o Portas publicou o FipeZap de setembro, o índice que acompanha o preço pedido nos anúncios de venda de apartamento. Subiu 0,58% no mês. A prévia da inflação do mesmo mês subiu 0,70%.
Em setembro, o anúncio do apartamento ficou atrás da inflação.
No ano o anúncio ainda ganha: 4,04% contra 3,83% da inflação. Mas a vantagem encolheu.
Os extremos: em Vitória o preço pedido subiu 12% no ano. Em Belo Horizonte, 0,19%. Mesmo país, mesmo índice. O que muda é o anúncio.
E lembre do que esse índice mede. Preço pedido. É o número que o vendedor escreveu e gostaria de receber. O preço que ele aceita no fim não está nesse índice: só existe na mesa, com você sentado do outro lado.
Junte os cinco.
Um balcão que fechou vinte dias. Um pote que esvazia e empresta ao mesmo tempo. Doze promessas. Um índice de aluguel que acordou. Um índice de anúncio que cochilou.
Agora olhe o que, de tudo isso, veio com valor e data de vencimento. Só um. O reajuste.
Eu desconfio de toda promessa de casa que não vem com horário de funcionamento. Prometer é fácil, e esta semana prometeram doze vezes. Entregar é o que a agência faz, quando está aberta. E é o que o índice faz sempre, sem greve e sem eleição.
Se o seu contrato de aluguel faz aniversário em outubro, leia nele qual índice e qual mês ele manda usar antes de pagar o boleto novo. Este ano, um mês de diferença é dinheiro. Como fazer essa conta está no guia do reajuste de aluguel.
E se o seu financiamento ficou preso na greve, a pasta que você montou é o seu melhor argumento. Não deixe ninguém dizer que o atraso foi seu.
É isso. Com o pé no chão.
Isto é leitura de mercado pra sua decisão, não recomendação de investimento.
Fontes
- ConJur, 30/09/2026: a Seção de Dissídios Coletivos do TST julgou em 29/09 o Dissídio Coletivo de Greve 1000975-72.2026.5.00.0000, declarou a greve de quase 20 dias na Caixa não abusiva, determinou o retorno imediato, fixou reajuste de INPC mais 0,6% e autorizou compensar os dias parados em até 180 dias; a liminar anterior mandava manter 60% das atividades
- Portas, 30/09/2026 (atualizado 02/10): greve iniciada em 10/09 e encerrada em 29/09, agências reabertas em 30/09; orientações de advogados (Henneberg Ferreira Marques, Bruno Boris, Poliszezuk) sobre atraso por fato de terceiro, multa, prazo de 60 a 90 dias em contratos novos; nota da Caixa de que as contratações 'seguiram disponíveis' pelo canal digital e correspondentes, sem informar quantas operações ficaram pendentes
- Bloomberg Línea, 01/10/2026: a Caixa responde sozinha por quase 70% do financiamento imobiliário no Brasil, está no centro das propostas dos dois candidatos que lideram as pesquisas para o endividamento das famílias, e Julyana Yokota (S&P Global Ratings) avalia que o papel do banco como vetor do mercado imobiliário não deve mudar com o resultado da eleição
- FGV IBRE, 29/09/2026: IGP-M de setembro em 1,57%, após -0,50% em junho, -1,16% em julho e -0,22% em agosto; acumulado em 12 meses de 3,34% (era 2,16% em agosto); explicação de Matheus Dias sobre matérias-primas (soja, milho, carne bovina) e o fim do Bônus de Itaipu na conta de luz; o índice pondera 60% preços ao produtor, 30% ao consumidor e 10% construção
- Portas, 01/10/2026: Índice FipeZap de venda residencial de setembro (+0,58% no mês contra IPCA-15 de +0,70%; +4,04% no ano contra +3,83% de inflação, que a Fipe calcula com o IPCA até agosto mais o IPCA-15 de setembro; alta em 46 cidades e 19 das 22 capitais; Vitória +12,04% e Belo Horizonte +0,19% no ano). O índice mede preço pedido em anúncio de apartamento, não valor de transação
- Abecip, reproduzindo O Globo (30/09/2026): crédito imobiliário com recursos da poupança (SBPE) de R$ 16,97 bilhões em agosto e R$ 132,5 bilhões de janeiro a agosto, alta de 37,5%; Filipe Pontual diz que as razões do salto 'não são muito claras'
- Veja, 02/10/2026, com dados da Abecip: captação líquida da poupança do SBPE negativa em R$ 47 bilhões de janeiro a agosto e em R$ 9,5 bilhões só em agosto
- Folha de S.Paulo, 03/10/2026, Ana Paula Branco: leitura dos planos de governo dos 12 candidatos à Presidência registrados no TSE sobre o crédito da casa própria (ampliação do MCMV, retorno ao Casa Verde e Amarela com meta de 2,5 milhões de residências, corte de IOF, hipoteca de 50 anos com parcela de R$ 200 a R$ 500, histórico de aluguel como comprovação de renda, estatização do sistema financeiro, entre outras)
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