Giro da semana

Bateu recorde de crédito. Quem abriu a porta foi um app de entrega

Tem uma cena que todo mundo já viu. O bar lota, a fila dobra a esquina, e o rapaz da porta continua com a prancheta na mão dizendo que hoje está cheio. Nunca teve tanta gente querendo entrar. E nunca foi tão difícil entrar.

A semana do mercado imobiliário foi exatamente isso, de segunda a sexta.

Erraram a conta pra cima, que é o erro que ninguém corrige

Na segunda, a associação dos bancos que emprestam para casa própria fez uma coisa rara: mexeu na própria previsão, e para cima. Tinha dito que o crédito imobiliário cresceria 16% em 2026. Refez a conta e disse 25%. Uns R$ 411 bilhões no ano.

Errar a previsão para cima é o único tipo de erro que ninguém corrige pedindo desculpa.

Mas teve um detalhe que passou batido. Nessa conta nova, o FGTS somado ao fundo do pré-sal empresta mais que a poupança. Ou seja: o dinheiro que compra a sua casa está deixando de vir da caderneta do vizinho e passando a vir do seu próprio fundo de garantia, com uma ajuda do petróleo.

O melhor julho da história saiu de um cofre que está vazando

Na quarta veio o número do mês, e ele é de arregalar. R$ 20,96 bilhões financiados com dinheiro da poupança em julho. Melhor julho da série inteira, 76,7% acima do mesmo mês de 2025.

Agora vire a página da mesma planilha.

Nesse mesmo julho, saíram da poupança R$ 7 bilhões a mais do que entraram. No ano, o buraco já está em R$ 37,5 bilhões. É o mesmo pote, gente. A poupança é de onde esse crédito sai.

Antes que alguém saia correndo para o caixa eletrônico: a sangria deste ano está menor que a do ano passado até aqui. Não é véspera de apagão. É a cena de quem enche taça atrás de taça de uma garrafa que já está pingando. Dá para brindar mais um pouco. Só não dá para fingir que a garrafa é infinita.

A Caixa disse em voz alta a parte que não estava no gráfico

Quinta-feira, comentando o resultado do trimestre, a vice-presidente de Habitação da Caixa falou do teto de juros. O teto que entra em vigor no ano que vem, para o crédito enquadrado no Sistema Financeiro da Habitação, o tal SFH, é de 12% ao ano. E a Selic, que é o juro básico do país, está em 14%.

Traduzindo: parte do dinheiro que o banco empresta custa 14, e o teto é 12.

Ela chamou isso de desafiador. Desafiador é uma bela palavra. Serve para maratona, para prova de matemática e para qualquer outra coisa que a gente não queira chamar pelo nome.

Aí veio a frase que interessa mesmo a quem vai comprar. O dinheiro da poupança, disse ela, “é um subsídio”, e seria “muito razoável” existir uma diretriz para ele atender “um certo perfil de imóvel e um certo perfil de população”.

Um certo perfil. Leia de novo, devagar, que é onde mora o assunto. Não é norma, não é proposta protocolada, e ela não disse qual perfil. Mas é o maior financiador de casa do país dizendo, no microfone, que esse dinheiro devia chegar a menos gente.

O mercado já respondeu qual é o perfil, e ninguém tinha perguntado

Na terça saíram os números da CBIC, que reúne a construção civil, e eles respondem a pergunta que ninguém fez. Dois em cada três imóveis novos vendidos no país no segundo trimestre têm dois quartos. São 65,2%. E o estoque à espera de comprador encolheu 2,1% no fim do trimestre.

Quer dizer que o tal perfil já existe. É o apartamento de dois quartos, com a máquina de lavar na área de serviço e a vaga de garagem em que a picape do vizinho não cabe. É dois terços de tudo que se vende, e está sumindo da prateleira.

Ela não disse onde a linha vai cair. Eu só reparei que o andar mais cheio do prédio é esse.

O culpado da semana foi a aposta

Também na quinta, na convenção do Secovi em São Paulo, o presidente da MRV disse que o cliente chega hoje para comprar em situação financeira mais desequilibrada do que antes, e apontou as apostas esportivas como parte disso.

Ele foi honesto, e isso conta a favor dele: avisou na mesma frase que a aposta não explica sozinha, que entram aí o endividamento e a economia inteira. Anotei a ressalva com carinho, porque ela é sempre a primeira coisa que some quando a frase é repetida por aí.

Mas repare no dia. Numa quinta-feira só, a explicação do banco foi a Selic e a explicação do construtor foi o orçamento do comprador.

Nunca é o preço. O preço passa a semana inteira ali, quietinho, sem ser convocado para nada.

E quem alargou a porta foi um aplicativo de entrega

Na quarta, quem empurrou o batente para fora não foi banco e não foi ministério. Foi um aplicativo de entrega.

O iFood lançou um programa que deixa o entregador emitir um documento oficial com o histórico do que ganhou na plataforma. Parece pouca coisa e é exatamente a peça que faltava: comprovar renda é uma das maiores dificuldades desse público na análise de crédito, diz a empresa.

O programa não dá dinheiro a ninguém. Dá papel.

Tem construtora junto, com condição facilitada em alguns empreendimentos. O aplicativo não vende imóvel, e a Caixa não faz parte do programa, embora desde julho aceite ganho de plataforma como renda formal, segundo a imprensa. E a porta é estreita, que fique registrado: a fase inicial pega quem cumpre 40 horas semanais no app. Mais ou menos 9 mil pessoas dentro dos 600 mil que a empresa diz ter cadastrados.

Um e meio por cento. É pouquíssimo. E ainda assim é mais do que zero, que foi o que o resto da semana ofereceu.

Reparei uma coisa só, e ela não estava em nenhum dos seis números. A semana inteira, toda vez que a conta não fechou, a resposta veio do mesmo lado do balcão. A Caixa explicou pela Selic. O construtor explicou pelo orçamento do comprador. E, quando faltou explicação, a saída proposta foi mandar o dinheiro barato para menos gente.

Ninguém subiu no palco para discutir quanto custa o dinheiro. Subiram todos para discutir quem pode pegar.

E foi por isso que o negócio do entregador me pegou. Não é subsídio, não é lei, não é bondade de ninguém. É um papel dizendo quanto o sujeito ganha. A porta não abriu porque alguém lá de dentro ficou generoso. Abriu porque alguém lá de fora finalmente conseguiu provar quanto ganha. O resto da fila continua na calçada, com o rapaz da prancheta na frente.

Se você pretende pedir financiamento nos próximos meses, faça o que o banco vai fazer, só que antes dele: abra a sua ficha. Renda que dá para provar, dívida em aberto, e quanto da sua renda a parcela come. A semana inteira falou sobre isso sem falar com você. Está tudo no guia sobre por que o financiamento é negado.

É isso. Com o pé no chão.

Isto é leitura de mercado pra sua decisão, não recomendação de investimento.

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