Giro da semana

Querem dobrar o crédito da casa. Falta quem caiba nele

Teve congresso de banco esta semana, e o assunto era um só: como fazer o crédito da casa própria crescer. Crescer, dobrar, destravar. Ninguém subiu no palco para perguntar quem, do outro lado, ainda cabe dentro dele.

O ministro quer o dobro

O ministro das Cidades foi lá e cravou um número: o crédito imobiliário tem que sair dos 11% do PIB de hoje e chegar a 20%, no mínimo. A meta é boa e o diagnóstico está certo, o Brasil financia casa de menos. Mas crédito não é casa. Crédito é o dinheiro que compra a casa, e foi só o dinheiro que a semana inteira mediu.

Os bancos subiram no mesmo palco para pedir o contrário

Pedir para cobrar mais caro. O financiamento enquadrado no SFH tem teto de 12% ao ano, e com a Selic em 14% o dinheiro parado rende mais do que o dinheiro emprestado. Eles avisaram, sem meia palavra, que do jeito que está a saída pode ser não emprestar. E teve a parte que ninguém contou: o diretor de Regulação do Banco Central admitiu ali que ainda não escolheram o índice que vai corrigir esses contratos. Pode ser a TR, pode ser o IPCA. O modelo começa a valer em janeiro. A régua vem depois.

Banco privado quer entrar no Minha Casa, mas pelo andar de cima

Bradesco, Itaú e Santander estudam financiar dentro do programa. Só nas faixas 3 e 4, as duas de cima. As de baixo ficaram fora do estudo. O Minha Casa nasceu para quem não conseguia comprar de jeito nenhum, e ficou interessante justamente no andar em que o cliente já se parece com o cliente que o banco tinha antes.

E R$ 2,2 bilhões de apartamento voltaram

Enquanto isso, saíram os balanços do trimestre. Dez incorporadoras que têm ação na bolsa somaram R$ 2,2 bilhões em distratos no primeiro semestre, que é o nome elegante da compra desfeita antes da chave. Alta de quase 28% em um ano. A maior fatia é da Direcional, a mesma empresa cujo presidente disse, dez dias atrás, achar ótimo que a Caixa tivesse ficado mais rigorosa com o comprador. Aplaudir o rigor do banco é bem mais fácil antes de o balanço sair.

O apartamento de família virou artigo raro

Do outro lado do balcão tem 117 mil apartamentos novos esperando comprador, só na cidade de São Paulo. O setor diz que não é encalhe, e tem razão: a maior parte ainda está em obra. Mas dentro desse estoque, só um em cada dez tem três ou quatro quartos. O CEO da consultoria que fez a conta explicou sem rodeio que é difícil produzir apartamento de 60 a 120 metros que caiba no bolso de quem vai morar nele. Não sumiu por falta de gente querendo. Sumiu porque a conta não fecha para quem constrói.

Junte os cinco e a semana conta uma história que não é a do palco. Tem dinheiro chegando, tem meta de dobrar, tem banco novo querendo entrar. E, do lado de cá, tem gente devolvendo contrato e um buraco no meio da tabela: quem ganha demais para a faixa de baixo e de menos para o alto padrão não encontra nem o apartamento nem a parcela do tamanho dele. Não acho a meta do ministro exagerada. Acho que ela mede a coisa errada. Dobrar o crédito sem resolver o produto entrega um país onde vai ser mais fácil conseguir o financiamento do que achar o que comprar com ele.

Se a compra está no seu radar, o que eu faria antes de olhar imóvel é descobrir em que faixa você cai. É ela que decide juros, subsídio e teto de preço, e mudou bastante nos últimos dois anos. O desenho de quem entra por cima está no guia da faixa 4 do MCMV.

É isso. Com o pé no chão.

Isto é leitura de mercado pra sua decisão, não recomendação de investimento.

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