Nota

Você não está numa fila. Está numa lista

Tem quem guarde o protocolo do cadastro habitacional na mesma gaveta do documento do carro. Todo ano vai à prefeitura perguntar quanto falta, ouve “aguarde” e volta somando mais um ano de espera. Quatro anos na fila, quatro anos de antiguidade. Parece justo.

Só que não é bem uma fila.

É uma lista, e ela não anda por ordem de chegada: anda por encaixe. Menos padaria, mais vestibular. A prefeitura olha a sua família, conta em quantas situações ela se encaixa, e quem se encaixa em mais passa na frente. Quem entrou primeiro e marca uma perde para quem entrou ontem e marca quatro.

As situações são onze, e estão na Portaria 738 do Ministério das Cidades, de 2024:

  • mulher como responsável pela família
  • pessoa negra na família
  • pessoa com deficiência
  • idoso
  • criança ou adolescente
  • alguém com câncer ou doença rara crônica e degenerativa
  • mulher vítima de violência doméstica
  • família indígena ou quilombola
  • casa em área de risco
  • quem já teve contrato do programa desfeito sem ter dado causa
  • situação de rua

E o tempo de espera, não vale nada?

Vale se a sua cidade quiser. O tempo de cadastro está na portaria, mas como item opcional, que a prefeitura adota ou não. É o avesso do que todo mundo imagina: a espera é o critério mais frágil da lista, não o mais forte.

Por isso o fura-fila funciona tão bem. Ninguém vende uma posição que não existe, mas vende ótimo a tranquilidade de quem acha que está numa. E a mesma portaria proíbe cobrar: inscrever e atualizar o cadastro é de graça, sempre. Quem pedir dinheiro para adiantar a sua vez acabou de se apresentar.

Isso tudo vale para a Faixa 1, a das casas subsidiadas, aquelas em que a prefeitura indica as famílias. Nas faixas financiadas não existe cadastro em prefeitura nenhuma: quem cadastra é o banco, diz o próprio Ministério. Esperar na fila errada é esperar para sempre.

O que eu faria hoje é ir ao CRAS ver se o seu CadÚnico tem a família de agora, e não a de 2022. É de lá que a prefeitura lê quem responde pela casa e quem se declara pessoa negra, indígena ou quilombola. O resto entra por documento: laudo, certidão, atestado, alguns seus e outros da própria prefeitura. E vale perguntar quais critérios a sua cidade usa, porque isso muda de cidade para cidade. As faixas estão no guia do MCMV.

Fila é onde o tempo trabalha por você. Lista é onde o papel trabalha. Você está na segunda.

É isso. Com o pé no chão.

Isto é leitura de mercado pra sua decisão, não recomendação de investimento.

Quer receber a leitura da semana?

Uma leitura por semana sobre imóveis, crédito e moradia, com o número conferido na fonte. Sem indicação de investimento e sem corretor te ligando.

Vitrine oficial da Bona Vita

Pronto pra ver imóveis? Direto do dono.

Ver imóveis no Direto dos Donos